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Sábado, 06 de Junho 2026
Saúde

Acesso ao pré-natal integral é menor entre indígenas e mulheres com baixa escolaridade

Pesquisa também evidencia barreiras no atendimento a gestantes da Região Norte do país.

Redação RCWTV
Por Redação RCWTV
Acesso ao pré-natal integral é menor entre indígenas e mulheres com baixa escolaridade
© Agência Brasil/Marcello Casal Jr./Arquivo
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No Brasil, embora a maioria das gestantes (99,4%) realize ao menos uma consulta de pré-natal, um serviço crucial para a saúde materno-infantil, a continuidade desse acompanhamento diminui ao longo da gravidez para mulheres indígenas, aquelas com menor nível de instrução e as residentes na Região Norte. Essa conclusão provém de um estudo divulgado nesta segunda-feira (13), desenvolvido por pesquisadores do Centro Internacional de Equidade em Saúde da Universidade Federal de Pelotas (ICEH/UFPel), em colaboração com a Umane, uma entidade sem fins lucrativos dedicada à garantia da qualidade e universalidade do sistema público de saúde.

Considerando o perfil geral das gestantes, a cobertura do pré-natal decai significativamente da primeira para a sétima consulta, passando de 99,4% para 78,1%. Recomenda-se que o acompanhamento seja iniciado logo após a confirmação ou suspeita de gravidez, idealmente antes da 12ª semana gestacional.

O estudo aponta que gestantes com menor escolaridade são as que menos concluem o ciclo completo de consultas de pré-natal. Enquanto 86,5% das mulheres com maior nível educacional formal completam o acompanhamento, esse percentual despenca para 44,2% entre aquelas com menos anos de estudo, representando quase a metade.

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Evidenciando as profundas desigualdades sociais, mulheres indígenas com baixa escolaridade enfrentam uma dupla barreira no acesso à saúde: a pouca instrução formal e a origem étnico-racial. Apenas 19% delas conseguem cumprir o número de consultas de pré-natal recomendado, um índice drasticamente menor em comparação aos 88,7% de mulheres brancas com 12 anos ou mais de escolaridade, que representam o grupo mais favorecido.

A exclusão das mães indígenas no pré-natal é ainda mais acentuada do que a observada entre mulheres pretas e pardas (que formam a população negra). Somente 51,5% das mulheres de povos originários concluem o acompanhamento, em contraste com 84,3% das brancas, 75,7% das pretas e 75,3% das pardas. O abandono do pré-natal entre indígenas atinge quase metade dos casos (46,2 pontos percentuais), um índice três vezes superior ao das mulheres brancas (15,3 pontos percentuais).

O grupo de gestantes da Região Norte também se mostra desfavorecido, com apenas 63,3% delas tendo acesso completo ao pré-natal. As regiões Nordeste (76,1%) e Centro-Oeste (77%) apresentam taxas ligeiramente melhores. As maiores coberturas são verificadas no Sudeste (81,5%) e no Sul (85%).

Os especialistas também sugerem a implementação de políticas direcionadas às gestantes adolescentes (com menos de 20 anos), visto que apenas 67,7% delas conseguem acesso integral ao pré-natal, um índice significativamente inferior aos 82,6% registrados entre mulheres com mais de 35 anos.

O estudo utilizou dados de mais de 2,5 milhões de nascimentos, registrados em 2023 no Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (Sinasc) do Ministério da Saúde.

Luiza Eunice, especialista e pesquisadora à frente do estudo no ICEH/UFPel, destaca que o padrão de sete consultas de pré-natal é uma recomendação recente no Brasil. O governo federal ampliou o número de consultas indicadas em 2024, ano em que também lançou a Rede Alyne, uma iniciativa com o objetivo de diminuir a mortalidade materna em 25% até 2027, e pela metade entre gestantes negras.

Nutricionista e doutora em saúde pública, Eunice defende ações para combater o racismo estrutural e a discriminação no acesso à saúde, além de programas específicos para adolescentes. Tais programas deveriam abordar a educação sexual de forma aberta e desmistificar a gravidez na adolescência, capacitando-as para cuidar da própria saúde e da do bebê. Segundo a pesquisadora, mulheres com menor escolaridade também devem ser um foco prioritário, pois é fundamental conscientizá-las sobre a importância do pré-natal.

Eunice ressalta, ademais, que a melhoria do cenário depende de fatores como a oferta de transporte público acessível para as gestantes chegarem às unidades de saúde e o estabelecimento de um vínculo de confiança com os profissionais da área.

"É por meio desse apoio, desse vínculo e da captação ativa da gestante que ela terá uma melhor navegação e retorno às consultas", afirmou a pesquisadora.

A ênfase em iniciativas voltadas para populações em maior vulnerabilidade, como apontado por Eunice, é uma estratégia que pode gerar resultados positivos, conforme a visão de Evelyn Santos, gerente de Investimento e Impacto Social da Umane. Ela considera que, apesar dos avanços na atenção primária, atender a certas necessidades requer um esforço ainda maior por parte do Poder Público.

"É fundamental que, independentemente do local de moradia, da cor da pele ou do nível de escolaridade, possamos oferecer o mesmo pré-natal adequado a todas as mulheres. Não podemos esperar que a pessoa com maior escolaridade busque ativamente seu pré-natal; o sistema precisa ser mais proativo com essas populações. É essa abordagem que faz toda a diferença: enxergar a totalidade da população e suas vulnerabilidades como um convite à ação", declarou Evelyn Santos em entrevista à Agência Brasil.

A importância e o funcionamento do pré-natal

O pré-natal tem como finalidade a detecção precoce de doenças e condições de saúde, possibilitando que médicos especialistas apliquem o tratamento adequado ou revertam sintomas, minimizando riscos durante o parto. Sua importância é vital para a gestante e o bebê, sendo ideal que o pai também participe das consultas para receber orientações e adotar uma postura de apoio e cuidado.

A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) destaca que o pré-natal engloba outras funções, como a orientação sobre a amamentação. O aleitamento materno exclusivo é recomendado como única fonte de alimento para o bebê até os 6 meses de idade. Após essa idade, a SBP sugere a introdução de alimentação complementar saudável, mantendo o leite materno como principal nutrição da criança até os 2 anos ou mais.

O leite materno contém todos os nutrientes essenciais para o desenvolvimento infantil, superando em benefícios as "fórmulas" industrializadas disponíveis no comércio. Ele oferece proteção contra infecções, fortalece o sistema imunológico e promove um maior vínculo afetivo entre mãe e filho. Para a mãe, a amamentação reduz a probabilidade de desenvolver certos tipos de câncer e auxilia na recuperação pós-parto.

A periodicidade das consultas de pré-natal é ajustada de acordo com o estágio da gravidez. A gestante deve comparecer mensalmente até a 28ª semana (equivalente ao sétimo mês); quinzenalmente, da 28ª à 36ª semana (do sétimo ao nono mês); e semanalmente, na fase final da gestação.

Conforme orientação da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), a bateria de exames solicitada no pré-natal pode abranger: hemograma completo, tipagem sanguínea e fator RH, glicemia em jejum, testes rápidos para sífilis (VDRL), teste rápido para HIV (Anti HIV), exames para toxoplasmose (IgM e IgG), sorologia para hepatite B (HbsAg) e exame de urina I/urocultura.

Adicionalmente, podem ser requisitados: uma ecografia obstétrica para determinar a idade gestacional (não obrigatória, mas realizada conforme necessidade clínica), citopatológico de colo do útero (se indicado), exame de secreção vaginal e parasitológico de fezes.

FONTE/CRÉDITOS: Letycia Bond - Repórter da Agência Brasil

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