Resgatar a história da comunidade Vila da Prata, que ocupou a área onde hoje está instalado o Parque da Lajinha e regiões do entorno, é o objetivo da visita guiada que a Fundação Cultural Alfredo Ferreira Lage (Funalfa) promove no próximo domingo, 27. A atividade, que terá performance d’As Ruths – Grupo de Artes Cênicas e Políticas, integra a Agenda Novembro Negro, organizada pela Prefeitura de Juiz de Fora (PJF), e acontece no Parque da Lajinha, às 10h, sendo livre para todos os públicos.
Conforme a historiadora Carine Muguet, do Departamento de Memória e Patrimônio (Dmpac) da Funalfa, resgatar e recontar uma história que, apesar de relativamente recente, foi apagada da memória coletiva é de suma importância do ponto de vista histórico, social e cultural. “Através dos relatos dos moradores dessa comunidade, trazemos luz a esse episódio emblemático que caiu no esquecimento da população, mas que deixou marcas profundas naqueles moradores”.
A Vila da Prata ficava nas terras da antiga Fazenda da Lajinha, que, com a morte dos donos, tornou-se propriedade da Prefeitura de Juiz de Fora, em virtude da falta de herdeiros e das dívidas deixadas. A comunidade, em torno de 70 famílias, era formada majoritariamente por pessoas negras e trabalhadores oriundos da zona rural, que encontraram no terreno, água farta, uma grande extensão de mata nativa e terra fértil. Muitas famílias tinham plantações e criação de animais de pequeno porte, o que ajudava na subsistência.
Carine explica que o circuito de visitação organizado pela Funalfa foi baseado nas informações da dissertação de mestrado (UFJF) de Christiane Abreu e contou com o apoio da documentalista Heliane Casarin, que pesquisou no acervo da Biblioteca Municipal Murilo Mendes informações e fotografias divulgadas pela imprensa, na época da remoção da comunidade, entre o final da década de 1970 e início dos anos 1980. “A verdade é que a área foi assumindo os contornos de uma favela, estereótipo desagradável para uma parcela da população, principalmente por estar localizada na entrada da cidade”, pontua Carine.
Ela conta que, por volta de 1978, com o objetivo de liberar espaço para a construção da via de interligação do tráfego com a BR-040 (principal acesso ao estado do Rio de Janeiro) e para viabilizar a criação do Parque da Lajinha, os moradores da Vila da Prata começaram a ser desapropriados. O processo aconteceu de forma polêmica, com a resistência das famílias, que chegaram a recorrer à Justiça tentando garantir sua permanência na área. A Prefeitura teve ganho de causa, e os moradores foram transferidos para os bairros Santo Antônio, Santa Efigênia e Olavo Costa, onde não encontraram condições adequadas de moradia.
À época, a imprensa acompanhou o processo de remoção. “A Vila da Prata acabou ontem, quando cem funcionários da Prefeitura e mais de 20 policiais chegaram ao local para cumprir o mandado de despejo (...). A operação começou logo cedo (...) e, entre lágrimas, choro e revolta geral dos moradores, tratores iam abrindo caminho, móveis eram retirados de dentro das casas e paredes derrubadas”, publicou o jornal Tribuna de Minas, em 23 de dezembro de 1981. “Carregados pelos caminhões da Prefeitura, as famílias foram despejadas dentro de um cômodo de terra batida, sem portas e janelas, sem água e luz...”.

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