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Terça-feira, 09 de Junho 2026
Ciência e Tecnologia

Projeto vai oferecer teste genético gratuito para casais que planejam ter filhos

Iniciativa apoiada pela FAPESP visa mapear genes associados a doenças hereditárias raras para criar “calculadoras de risco”, baseadas na diversidade da população brasileira

Redação RCWTV
Por Redação RCWTV
Projeto vai oferecer teste genético gratuito para casais que planejam ter filhos
Além de ajudar as pessoas a tomarem decisões informadas sobre ter filhos, o projeto quer criar um grande banco de dados genéticos do Brasil (imagem: Freepik/Magnific)
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Elton Alisson, de Londres | Agência FAPESP – O Centro de Estudos do Genoma Humano e Células-Tronco (CEGH-CEL) iniciará nas próximas semanas o recrutamento de participantes para o projeto “Nossos Genes”. A iniciativa visa identificar casais com risco aumentado de transmitir doenças genéticas de herança recessiva – quando o filho herda duas cópias alteradas do mesmo gene, sendo uma do pai e outra da mãe – e a síndrome do X-Frágil, uma causa comum de deficiência intelectual hereditária.

O trabalho será feito em parceria com a Universidade de Brasília (UnB) e as federais da Bahia (UFBA) e do Espírito Santo (UFES), além de outros colaboradores. O escopo da iniciativa foi apresentado durante a FAPESP Week Londres por Michel Satya Naslavsky, pesquisador do CEGH-CEL – um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID) da FAPESP, sediado no Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP).

“Casais que planejam ter filhos podem se inscrever voluntariamente para a triagem de genes associados a doenças recessivas e à síndrome do X-frágil [independentemente do histórico familiar]. Se ambos portarem variantes patogênicas em um mesmo gene, apresentando, somados, 25% de risco de conceber um filho afetado, serão comunicados durante o aconselhamento genético”, explicou Naslavsky à Agência FAPESP. Os testes serão feito na sede do CEGH-CEL, na USP.

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Além de ajudar as pessoas a tomarem decisões informadas sobre ter filhos, o projeto quer criar um grande banco de dados genéticos do Brasil. O objetivo é descobrir a frequência de doenças genéticas hereditárias e criar “calculadoras de risco”. Essas calculadoras somam várias pequenas variações no DNA de uma pessoa para prever a chance de ela ter doenças comuns, como diabetes, pressão alta e problemas do coração. Isso é importante porque, hoje, a maioria das pesquisas voltadas para esse tema utiliza dados genômicos de populações europeias, que não representam bem a mistura genética e a diversidade do povo brasileiro.

“O UK Biobank [maior base de dados de saúde disponível para pesquisadores, que rastreia a genética e o estilo de vida de 500 mil voluntários britânicos para que pesquisadores globais possam investigar causas de doenças e desenvolver tratamentos] é um recurso incrível, mas 90% da sua base é composta por indivíduos de ancestralidade europeia. Nenhum dos outros 10% representa perfis semelhantes a brasileiros”, afirmou Naslavsky.

Essa lacuna é crítica porque os chamados “escores de risco poligênico” – análises que somam milhares de pequenas variações no DNA para prever a propensão a doenças comuns – mudam drasticamente de acordo com a ancestralidade. Como os modelos globais atuais não levam em conta a intensa mistura genética no Brasil, frequentemente subestimam ou superestimam os riscos quando aplicados à população brasileira, explicou Naslavsky.

“Ao tentarmos diagnosticar doenças raras, a falta de dados sobre fragmentos genéticos não europeus nos bancos mundiais, como o ClinVar [arquivo público de variações genéticas humanas], faz com que a chance de um diagnóstico correto seja três vezes menor para regiões não europeias do genoma”, comparou.


Michel Satya Naslavsky: “Estudar nossa população não é apenas importante para entendermos nossos riscos; é uma oportunidade de encontrar mecanismos biológicos que podem beneficiar o mundo todo” (foto: Elton Alisson/Agência FAPESP)

Necessidade urgente

A inviabilidade de importar modelos desenvolvidos no exterior torna a criação de bancos de dados genéticos nacionais uma necessidade urgente para garantir que a medicina de precisão chegue ao Sistema Único de Saúde (SUS) com eficácia. “Não temos como fugir: precisamos produzir dados de brasileiros, pois não conseguiremos usar informações emprestadas”, enfatiza Naslavsky.

Para diminuir essa lacuna, o CEGH-CEL criou, em 2017, o Arquivo Brasileiro Online de Mutações (ABraOM). Esse banco de dados público virou uma ferramenta essencial para cientistas e laboratórios porque ajuda a identificar quais variações genéticas são comuns na população e não causam doenças. Como o arquivo foi feito com base em idosos saudáveis, ele funciona como um filtro de alta precisão: se uma mutação aparece ali, os médicos sabem que ela é inofensiva e podem focar a busca em outras suspeitas. “Com 1.170 genomas, ele ainda é o maior banco público baseado em censo de dados genômicos do país”, afirmou o cientista.

Para escalar o mapeamento genômico, o Ministério da Saúde lançou, em 2023, o projeto Genoma SUS, que, assim como a iniciativa “Nossos Genes”, está vinculado ao Programa Genomas Brasil. O esforço do Genomas SUS integra nove laboratórios de pesquisa em todas as regiões do Brasil e já concluiu o sequenciamento de 21 mil genomas completos. A meta é alcançar outros 50 mil nos próximos dois anos. A FAPESP está financiando 15 mil dessas análises no Estado de São Paulo (leia mais em: agencia.fapesp.br/54730).

“O Brasil possui o maior sistema público e universal de saúde do mundo. É lógico que o SUS faça esse investimento para que a tecnologia seja incorporada aqui, sem depender de dados produzidos no exterior”, defendeu o pesquisador.

Soberania sobre os dados

Um ponto central na visão de Naslavsky é a soberania. O pesquisador defende um modelo de gestão em que o retorno das pesquisas seja prioritariamente para o sistema público de saúde e para pesquisadores com projetos voltados à saúde pública.

“Do ponto de vista moral, quem mais se beneficia com esses dados? O SUS. Faz todo sentido que o Estado faça esse investimento”, afirma. Além do impacto imediato nos fluxos de diagnóstico e outros propósitos, como o de identificação de casais em risco, a geração de dados brasileiros abre portas para descobertas inéditas. Naslavsky cita estudos sobre o Alzheimer e variantes ligadas ao metabolismo de lipídios, em que a miscigenação brasileira pode revelar vias biológicas alternativas, levando ao desenvolvimento de novos alvos terapêuticos.

“Estudar a nossa população não é apenas importante para entendermos nossos riscos; é uma oportunidade de encontrar mecanismos biológicos que podem beneficiar o mundo todo”, conclui.

Mais informações sobre a FAPESP Week Londres em: fapesp.br/week/2026/london.
 

FONTE/CRÉDITOS: Elton Alisson, de Londres | Agência FAPESP

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