O Papo de Trivela, da RCW TV, recebeu na noite desta terça-feira (11) o ex-zagueiro Gélson Baresi, em uma participação marcada por histórias de sua trajetória no futebol, lembranças de títulos conquistados por Flamengo e Cruzeiro e reflexões sobre as transformações do futebol brasileiro.
Durante a entrevista, Gélson revisitou desde os primeiros passos no futebol de salão, ainda no Rio de Janeiro, até a chegada ao profissional do Flamengo aos 17 anos. Também falou sobre a conquista do Campeonato Brasileiro de 1992, a transferência para o Cruzeiro, os títulos da Copa do Brasil de 1996 e da Libertadores de 1997, a passagem pelo futebol europeu e sua experiência nas seleções brasileiras de base.
Atualmente trabalhando com gestão e representação de carreiras de jogadores e treinadores, o ex-zagueiro também analisou o processo de formação dos atletas e defendeu uma participação maior de ex-jogadores capacitados nas categorias de base dos grandes clubes brasileiros.
Do futebol de salão ao profissional do Flamengo
Antes de se tornar conhecido nacionalmente, Gélson Baresi teve sua formação no futebol de salão. Morador de Cascadura, no Rio de Janeiro, começou a jogar a modalidade e chegou a defender o Vasco.
A mudança para o Flamengo aconteceu de maneira especial. Gélson recebeu um convite de Zico, seu grande ídolo, para jogar no clube. A partir daí, passou do futebol de salão para o futebol de campo e começou a avançar rapidamente pelas categorias de base rubro-negra.
O desenvolvimento foi acelerado e, aos 17 anos, Gélson chegou ao futebol profissional do Flamengo.
A passagem pelo Flamengo seria fundamental para a construção de sua carreira. Além da formação no clube, Gélson teve a oportunidade de conviver com jogadores experientes e integrar uma geração extremamente talentosa que começava a ganhar espaço no futebol profissional.
O título brasileiro de 1992 e uma geração de talentos
Entre as lembranças mais especiais da passagem pelo Flamengo está a conquista do Campeonato Brasileiro de 1992.
Gélson participou de algumas partidas da campanha e estava na Granja Comary, com a Seleção Brasileira de base, quando foi liberado para disputar o segundo jogo da decisão contra o Botafogo.
O Flamengo havia vencido a primeira partida por 3 a 0 e chegava à decisão em vantagem. Com Júnior Baiano e Rogério impossibilitados de atuar, Gélson formou a dupla de zaga com Wilson Gottardo.
O jovem zagueiro contou que recebeu palavras de confiança de Carlinhos, então técnico do Flamengo, e de jogadores mais experientes do elenco. A tranquilidade passada pelos companheiros foi importante para que pudesse enfrentar aquele momento decisivo.
O título também marcou Gélson por outro motivo: a quantidade de jogadores formados dentro do próprio Flamengo. Segundo ele, grande parte daquele elenco havia passado pelas categorias de base do clube, incluindo vários atletas que haviam conquistado a Copa São Paulo de Futebol Júnior de 1990.
Entre os jogadores daquela geração estavam nomes como Marcelinho Carioca, Paulo Nunes, Djalminha, Marquinhos, Fabinho, Nélio, Piá, Rogério, Luiz Antônio e Júnior Baiano, entre outros.
Na avaliação de Gélson, o Flamengo poderia ter mantido aquela geração por mais tempo e construído uma equipe capaz de conquistar outros títulos nos anos seguintes. Muitos daqueles jogadores, posteriormente, tornaram-se referências em outros clubes do futebol brasileiro.
A mudança para o Cruzeiro e a conquista da Libertadores
Em agosto de 1995, Gélson deixou o Flamengo e se transferiu para o Cruzeiro, decisão que, segundo ele, não traz nenhum arrependimento.
O ex-zagueiro destacou o carinho que mantém pelo clube mineiro e classificou a passagem por Belo Horizonte como um dos períodos mais importantes de sua carreira.
Ainda em 1995, o Cruzeiro chegou à semifinal do Campeonato Brasileiro contra o Botafogo. Após dois empates, no Maracanã e no Mineirão, a equipe mineira acabou eliminada pelo critério da melhor campanha do adversário.
A experiência serviu como preparação para uma equipe que se fortaleceria ainda mais na temporada seguinte. Gélson lembrou que a chegada de jogadores com experiência e títulos, em uma negociação envolvendo Cruzeiro e São Paulo, contribuiu para a formação de um time competitivo.
O resultado apareceu em 1996, com a conquista da Copa do Brasil, diante do Palmeiras.
No ano seguinte, veio o título mais importante da passagem de Gélson pelo clube: a Copa Libertadores da América de 1997.
O ex-zagueiro foi titular da campanha e voltou a formar dupla de zaga com Wilson Gottardo. A parceria, que havia sido campeã brasileira pelo Flamengo em 1992, cinco anos depois voltava a levantar um grande troféu, desta vez com a camisa do Cruzeiro.
A conquista continental no Mineirão ficou marcada entre as principais lembranças do ex-zagueiro. Para ele, levantar a Libertadores representou a realização de um dos grandes sonhos de qualquer jogador profissional.
Pelo Cruzeiro, Gélson também conquistou o Campeonato Mineiro em 1996 e 1997, consolidando uma das fases mais importantes de sua carreira.
A experiência nas seleções brasileiras de base
Antes mesmo de alcançar os grandes títulos pelo Cruzeiro, Gélson teve passagem pelas seleções brasileiras de base.
Em 1993, integrou a equipe brasileira campeã mundial Sub-20, em uma geração que reunia jogadores que posteriormente alcançariam grande destaque no futebol nacional e internacional.
A experiência com as seleções de base foi mais um capítulo importante de uma trajetória que começou ainda muito cedo no Flamengo e que levou o zagueiro a diferentes níveis do futebol profissional.
Da Europa à continuidade da carreira
Depois da passagem pelos grandes clubes brasileiros, Gélson também teve experiência no futebol europeu.
Entre 2000 e 2002, defendeu o Vitória de Setúbal, de Portugal, ampliando sua experiência profissional e conhecendo uma realidade diferente do futebol brasileiro.
Ao longo da carreira, também passou por clubes como Fluminense, Atlético-MG, Coritiba e Paraná Clube.
A experiência acumulada em diferentes equipes e contextos contribuiu posteriormente para a decisão de permanecer ligado ao futebol mesmo depois de pendurar as chuteiras.
“O Brasil não pode perder a sua essência”
Durante a entrevista, Gélson também comparou o futebol de sua época com o futebol atual.
Segundo ele, quando atuava profissionalmente, a técnica tinha papel predominante, seguida pela parte tática, mental e física. Na avaliação do ex-zagueiro, atualmente essa ordem mudou, com o aspecto físico ganhando muito mais importância.
Para Gélson, o futebol brasileiro também precisa tomar cuidado para não perder suas características próprias.
O ex-jogador reconheceu a importância de observar bons exemplos do futebol europeu, mas defendeu que o Brasil preserve aquilo que historicamente fez do país uma referência mundial:
“O Brasil não pode perder a sua essência, o seu DNA.”
Na visão de Gélson, recuperar essa identidade pode ser importante para que o futebol brasileiro volte a alcançar grandes conquistas internacionais.
A mudança no estilo de jogo e a falta do camisa 10
Gélson também lembrou que a relação entre jogadores e torcida era diferente durante sua carreira.
Segundo ele, em uma época em que os estádios estavam frequentemente lotados, recuar a bola para o zagueiro ou para o goleiro costumava provocar vaias. A cobrança das arquibancadas fazia com que os jogadores procurassem arriscar mais e jogar para frente.
O ex-zagueiro citou os laterais como exemplo. Na sua avaliação, os jogadores daquela época tinham maior preocupação em participar das ações ofensivas, enquanto atualmente muitos priorizam a segurança defensiva e evitam correr riscos.
Outro ponto destacado foi a redução da presença do tradicional camisa 10 no futebol brasileiro.
Para Gélson, ainda existem jogadores com características de meia e capacidade para atuar pelo centro do campo, mas muitos acabam deslocados para as extremas, exercendo funções diferentes das que tradicionalmente eram atribuídas aos armadores.
Gélson defende ex-jogadores na formação das novas gerações
A discussão sobre as mudanças no futebol levou Gélson a abordar um tema que também faz parte de sua experiência atual: a formação dos jovens jogadores.
Ele defendeu que ex-jogadores capacitados tenham maior participação nas categorias de base dos grandes clubes brasileiros, justamente para transmitir aos atletas que estão começando aquilo que aprenderam durante suas próprias carreiras.
Gélson lembrou que ele mesmo foi formado tendo como treinadores profissionais que haviam vivido o futebol dentro de campo.
Entre eles, citou Liminha, Dida, Seu Neca e Joel, profissionais que, segundo ele, transmitiram experiências que foram importantes para sua formação.
Para o ex-zagueiro, a vivência de quem esteve dentro do futebol profissional pode ajudar os jovens não apenas na parte técnica, mas também na compreensão do ambiente, nas escolhas, no comportamento e nos desafios que fazem parte de uma carreira.
Do campo para a gestão de carreiras
Assista à participação completa de Gélson Baresi
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