Thais Szegö | Agência FAPESP – Pessoas que têm dor crônica no ombro apresentam uma tendência natural de evitar movimentos que envolvam essa parte do corpo com medo de se machucar novamente ou gerar ainda mais incômodo. Entretanto, quando isso acontece além do período necessário à reparação de fratura, a dor pode se tornar crônica, ou seja, mais longa, e a incapacidade da articulação pode se agravar. Assim, o paciente tende a ter pior prognóstico para recuperação da funcionalidade, da força muscular e da mobilidade do ombro. Esse ciclo pode retardar a recuperação e aumentar a incapacidade, mesmo depois de o osso já ter se consolidado.
Trabalho realizado na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP) apontou o limite adequado para esse comportamento de pacientes que sofreram lesão proximal do úmero – fratura na região superior do braço, perto da articulação do ombro.
“Como ainda não estava claro se isso acontece também com indivíduos com fratura de úmero proximal, decidimos pesquisar o tema”, conta a fisioterapeuta Jaqueline Martins Priuli, coordenadora do trabalho, apoiado pela FAPESP.
Para isso, foram avaliados 105 indivíduos com esse tipo de lesão que responderam questionários sobre dor e limitação no ombro, comportamentos de evitação das atividades envolvendo essa parte do corpo, medo de movimentar o braço, confiança para realizar atividades apesar do desconforto, sintomas de depressão e pensamentos negativos sobre a dor.
Os resultados levaram a esclarecimentos sobre dois pontos: entender quais fatores estão relacionados ao comportamento de evitar movimentos e atividades que envolvem o ombro após ter a fratura e identificar a pontuação na ADAP Shoulder Scale, escala que avalia o comportamento de evitação em atividades que envolvem o ombro.
“Com esses dados foi possível avaliar se esse tipo de comportamento é muito elevado. Além disso, nosso estudo sugeriu que identificar precocemente esse tipo de atitude pode contribuir para a avaliação da necessidade de intervenções precoces e direcionadas para aumentar a confiança e o engajamento na reabilitação, levando a uma recuperação mais rápida e com menos limitações”, acrescenta Priuli.
De acordo com a pesquisadora, após uma fratura é natural que a pessoa tenha medo de sentir dor ou machucar novamente o local lesionado. Inclusive, muitas vezes os pacientes são orientados pelo profissional de saúde a evitar movimentos que envolvam essa parte do corpo, o que está dentro do esperado para reparar a fratura.
O problema é que alguns pacientes ficam inseguros sobre o que podem ou não fazer e passam a evitar movimentos e atividades por mais tempo do que o necessário, o que normalmente acontece dentro de três meses, ou evitam movimentos considerados seguros, como escovar os dentes ou comer sozinho, o que prejudica a recuperação funcional do ombro após a fratura.
Um trabalho anterior do mesmo grupo entrevistou pacientes que afirmaram que receber informações detalhadas sobre o processo de recuperação ajuda a reduzir as incertezas e contribui para uma experiência menos estressante. “Por isso, além do tratamento físico, a orientação adequada dos profissionais de saúde sobre as atividades que o indivíduo pode realizar em cada fase do tratamento é fundamental para aumentar a confiança do paciente e ajudá-lo a retomar suas atividades de forma segura e no tempo adequado”, diz a fisioterapeuta.
O artigo Avoidance behavior after proximal humerus fracture: implications for rehabilitation and a clinically relevant cutoff for the Avoidance of Daily Activities Photo Scale (ADAP Shoulder Scale) pode ser lido em: tandfonline.com/doi/full/10.1080/09638288.2026.2665082.

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