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ONU alerta para atraso nas metas globais de biodiversidade e cobra ações até 2030

Relatório internacional aponta que menos da metade dos objetivos avaliados está no caminho esperado; financiamento insuficiente e políticas econômicas prejudiciais à natureza são os principais desafios.

 Isa Paula Dantas
Por Isa Paula Dantas
ONU alerta para atraso nas metas globais de biodiversidade e cobra ações até 2030
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Embora quase 90% dos países tenham estabelecido metas nacionais para conter a perda da biodiversidade, menos da metade dos objetivos avaliados caminha no ritmo necessário para ser alcançada até 2030. O compromisso internacional prevê proteger ao menos 30% das áreas terrestres, marinhas e de águas interiores, mas as projeções atuais indicam alcance de apenas 27,5% da cobertura terrestre. Esse avanço é freado principalmente pela escassez de recursos financeiros e pela manutenção de incentivos econômicos nocivos à natureza, gargalos que estão no centro dos debates da 17ª Conferência das Partes (COP17), realizada em Yerevan, na Armênia, entre 19 e 30 de outubro.

O mundo avançou na definição de compromissos para proteger a biodiversidade, mas ainda enfrenta dificuldades para transformar propostas em resultados concretos. Essa é a principal conclusão do relatório State of Biodiversity Action, divulgado em outubro de 2026 pela Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB), órgão vinculado à Organização das Nações Unidas (ONU).

O documento apresenta um balanço global do progresso na implementação do Marco Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal, acordo internacional firmado em 2022 para conter e reverter a perda da natureza até 2030. Os dados indicam que, embora a elaboração dos planos nacionais tenha avançado, o ritmo das ações permanece insuficiente para garantir o cumprimento das metas até o prazo final.

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Países avançam nos planos, mas metas continuam ameaçadas

Segundo a avaliação da CDB, quase 90% dos países participantes estabeleceram metas nacionais de biodiversidade. Apesar desse avanço formal, menos da metade dos objetivos avaliados segue no caminho esperado. O abismo entre os compromissos anunciados e a realidade prática evidencia um dos maiores desafios da agenda ambiental internacional: transformar decisões políticas em medidas efetivas, dotadas de orçamento, fiscalização e indicadores de desempenho.

O Marco Global de Kunming-Montreal reúne 23 metas para 2030 e diretrizes de longo prazo até 2050. O acordo busca enfrentar as causas centrais da degradação ambiental, como a destruição de habitats, a exploração insustentável de espécies, a poluição e a proliferação de espécies invasoras. Para que os objetivos sejam alcançados, os governos precisam integrar a conservação às políticas públicas e às decisões econômicas em setores como agricultura, pesca, infraestrutura, exploração florestal e finanças.

Meta prevê conservar 30% das áreas terrestres e marinhas

Um dos compromissos centrais do acordo é conservar ao menos 30% das áreas terrestres, águas interiores, ecossistemas marinhos e zonas costeiras até 2030. A iniciativa busca expandir a proteção de ambientes essenciais para a sobrevivência das espécies, a manutenção dos ecossistemas e a prestação de serviços ambientais vitais para a sociedade.

Entretanto, as metas apresentadas até agora pelos governos não asseguram o alcance integral desse objetivo. De acordo com a CDB, os compromissos atuais garantem a cobertura de cerca de 27,5% das áreas terrestres e águas interiores até o fim da década. O relatório destaca que essa porcentagem é apenas uma projeção com base nas intenções declaradas, não significando que essa parcela já esteja protegida ou que o resultado seja garantido.

O levantamento também aponta iniciativas de recuperação ambiental, somando cerca de 193 milhões de hectares em projetos de restauração até 2025. Embora o número demonstre a dimensão dos esforços, especialistas alertam que a recuperação de áreas degradadas não substitui a urgência de conter novas perdas e preservar ecossistemas intocados.

Falta de financiamento e incentivos nocivos travam avanços

A escassez de recursos financeiros e técnicos surge como um dos maiores obstáculos para a execução do plano. Países em desenvolvimento enfrentam limitações severas para monitorar a fauna e a flora, fiscalizar reservas, recuperar ambientes degradados e manter programas contínuos. Nesse contexto, a cooperação internacional torna-se fundamental para ampliar os investimentos e reduzir a disparidade entre as nações.

Outro desafio crítico envolve os incentivos econômicos que alimentam atividades predatórias. Subsídios governamentais frequentemente entram em conflito com a pauta ambiental ao estimular práticas industriais e agrícolas que degradam a natureza. Por isso, a agenda global exige não apenas a ampliação das verbas diretas para conservação, mas também a revisão e a eliminação desses incentivos contraditórios.

Os impactos do problema extrapolam a preservação de fauna e flora. Os ecossistemas são a base da produção de alimentos, do abastecimento de água e da estabilidade dos solos e do clima. Por isso, a degradação ambiental eleva os riscos para comunidades e setores econômicos inteiros, transformando a conservação da biodiversidade em uma questão urgente de segurança alimentar e sustentabilidade econômica.

COP17 discute caminhos para acelerar resultados

A 17ª Conferência das Partes da Convenção sobre Diversidade Biológica (COP17) ocorre de 19 a 30 de outubro em Yerevan, na Armênia. O encontro reúne representantes de diversos países para avaliar o avanço coletivo e definir estratégias urgentes para acelerar as ações.

A conferência acontece a apenas quatro anos do prazo final estipulado para 2030, o que aumenta a pressão por decisões acompanhadas de mecanismos claros de financiamento e prestação de contas. Embora a avaliação global ajude a mapear lacunas, os resultados práticos dependerão exclusivamente da execução das medidas no âmbito nacional de cada país.

O papel crucial de povos indígenas e comunidades locais

A conservação da biodiversidade depende diretamente da inclusão dos povos indígenas e das comunidades tradicionais. Seus conhecimentos ancestrais e práticas de manejo têm papel comprovado na preservação dos ecossistemas e no uso sustentável dos recursos naturais. A participação dessas populações no desenho das políticas ambientais garante que as decisões considerem as dinâmicas locais e respeitem os direitos de quem historicamente protege esses territórios.

A criação de áreas formalmente protegidas é apenas um passo do processo; para funcionar na prática, exige gestão contínua, fiscalização rigorosa e combate ostensivo às pressões econômicas sobre a natureza.

O desafio decisivo até 2030

O relatório da ONU deixa claro que estabelecer metas é apenas o ponto de partida da política global de biodiversidade. O fosso entre as intenções governamentais e o ritmo atual de execução indica que os próximos anos serão cruciais para conter o colapso ambiental. Mobilizar verbas, cortar subsídios nocivos e colocar a natureza no centro das decisões corporativas e governamentais são medidas inadiáveis.

A COP17 é uma oportunidade essencial para reajustar o rumo da pauta internacional. No entanto, o verdadeiro indicador de sucesso não estará nos discursos das conferências, mas na transformação das promessas em resultados mensuráveis: ecossistemas protegidos, terras restauradas e redução real das pressões sobre a vida no planeta.

FONTE/CRÉDITOS: Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB) — órgão vinculado à Organização das Nações Unidas (ONU) Organização das Nações Unidas (ONU)

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