Quatro mulheres negras que enfrentam o racismo cotidianamente e se destacam pela atuação nas áreas acadêmica, política e social são as protagonistas do projeto “Negras Somos: Quando me descobri negra?”, da psicóloga e professora Ana Lúcia Adriana Costa e Lopes. Com financiamento do Edital “Quilombagens”, lançado pela Prefeitura de Juiz de Fora (PJF) através da Fundação Cultural Alfredo Ferreira Lage (Funalfa), como parte do Programa Cultural Murilo Mendes, o projeto consiste em entrevistas, transformadas em podcasts, que serão disponibilizados semanalmente pelo Spotify, a partir desta sexta-feira, 4.
Os episódios gravados serão disponibilizados também no YouTube, com acessibilidade em libras. O encerramento do projeto é previsto para o dia 27, com a apresentação de um curta-metragem, reunindo memórias de infância das entrevistadas, no Anfiteatro João Carriço, localizado na Avenida Rio Branco 2.234 - Centro.
“Neste projeto, quero trazer a contrapalavra destas mulheres para facilitar o entendimento do que é ser negra em uma sociedade racista. Destaco principalmente os depoimentos de como elas se descobriram negras, os enfrentamentos que fizeram ao racismo e como suas histórias podem ressignificar as histórias de outras mulheres, de jovens e de crianças negras”, explica Ana Lúcia.
Segundo ela, o mote para desencadear o diálogo foi a pergunta: “Como me descobri negra?”. A partir das narrativas, foram retirados recortes como a infância e os caminhos de enfrentamentos de cada uma. A proponente explica que o projeto surgiu dos estudos da linguagem no Grupo Atos-UFF, do discurso e da reflexão do poema de Victória Cruz, “Me Gritaron Negra”. Aos sete anos, ao ser chamada de negra na rua, Victória descobre na voz do outro, o teor negativo que a palavra negra carregava. “A ideia é trazer a reflexão de que a consciência é socialmente construída, que não me descubro negra sozinha, me descubro com todas as consciências que discriminam brancos de negros.”
O Edital “Quilombagens” utiliza recursos oriundos do Fundo Municipal de Incentivo à Cultura (Fumic). O objetivo é fomentar ações e iniciativas culturais, relacionados com a valorização da cultura negra e de sua ancestralidade, para o fortalecimento, o resgate, o registro, a consolidação e a ampliação do fluxo de atividades relacionadas à cultura negra e à transmissão de saberes do povo negro.
Entrevistadas
- Ângela Maria Lopes - historiadora, especialista em relações Étnico-raciais pela Neab/UFJF, proprietária da Livraria Ca D’ori, primeira livraria da cidade a ter em seu acervo títulos dedicados à discussão racial e de gênero em livros de literatura e livros teóricos. A livreira, além da venda, orienta e assessora escolas sobre esses temas, coordena o coletivo Muntu, grupo de mulheres que se reúnem para discutir as produções literárias e autorias negras. Recebeu premiações pelo trabalho que desenvolve para a cultura e a educação. Tem como fundamento de vida o conceito do autoamor defendido por bell hooks.
- Giane Elisa Sales de Almeida - diretora-geral da Funalfa, responsável pelas políticas e articulações da Cultura em Juiz de Fora. Professora da Rede Municipal e Mestre em Educação, atua nas áreas de Educação, Diversidades e Direitos Humanos, com ênfase nos estudos de Raça e Gênero. Dramaturga e diretora artística do Grupo de Artes Cênicas e Políticas As Ruths.
- Zélia Maria da Costa Ludwig - professora, pesquisadora e orientadora do Departamento de Física da UFJF. Membro do Grupo de Trabalho para Aumento da Diversidade e Equidade Racial em Física Sociedade Brasileira de Física, membro da ABPN e membro do Parent in Science, desenvolve estudos interdisciplinares sobre gênero, raça, maternidade, ciência e sociedade com a proposta de discutir equidade e os direitos da comunidade negra na academia e na sociedade, através da desconstrução de conceitos preestabelecidos, trabalhos pelos quais recebeu várias premiações.
- Valquíria Márcia Tiodoro - aposentada, mãe, avó e pessoa de referência na sua comunidade - Belo Vale - pela criação de uma biblioteca, espaço cultural que fomenta vários projetos para desenvolvimento do local, em consonância com a Universidade, os Direitos Humanos e iniciativa privada. Busca, a partir das ações culturais, ampliar o conhecimento da comunidade, com foco no empoderamento das mulheres que são mães, das crianças e jovens para o enfrentamento ao racismo.
Equipe de trabalho:
Apresentação e roteiro: Ana Lúcia Adriana Costa e Lopes
Direção de arte design gráfico: Tito Junior
Edição e sound design: Fabrício Conde - A Fiar Produções
Assessoria de conteúdo: Jussara Alves
Ilustração e animação: Lorena C. Lopes
Fotografia: Patrícia Almeida
Câmera e edição: Tomyo Costa Ito
Tradução em libras: Dandara Diniz e Andressa Machado
Vinheta: Lorenzo Lopes
Vozes da Caravana de Histórias

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