Na estreia da temporada 2021 da websérie “A Peça da Semana”, o Departamento de Acervo Técnico e Ações Culturais do Museu Mariano Procópio apresenta um álbum com envelopes e cartões-postais que circularam durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Imagens e informações sobre o item, que faz parte da Coleção Família Visconde de Cavalcanti podem ser conferidos a partir desta segunda-feira, 3, no perfil no Instagram do Museu Mariano Procópio.
A série foi veiculada entre junho e dezembro de 2020, sendo uma estratégia para manter a interlocução do Museu com o público, mesmo durante a pandemia da Covid-19. A excelente repercussão nas redes sociais determinou a retomada do trabalho com postagens semanais, sempre às segundas-feiras. As imagens e a pesquisa histórica são produzidas pelos historiadores Sérgio Vicente, Rosane Carmanini Ferraz e Priscila Pinheiro, e pelo assistente de museologia Eduardo de Paula Machado, com apoio técnico do conservador-restaurador Aloysio Gerheim. Todos integram a equipe técnica do Museu.
Sobre a peça desta semana, Priscila Pinheiro informa que o álbum pertenceu à Amélia Machado Cavalcanti de Albuquerque, a Viscondessa de Cavalcanti (1853-1946). “Ela era prima-irmã de Alfredo Ferreira Lage, fundador do Museu Mariano Procópio. Dona de uma coleção significativa, tanto em termos quantitativos quanto qualitativos, ela doou grande parte de seu acervo ao museu criado pelo primo.”
Ainda conforme a historiadora, após o falecimento do marido, ocorrido na Chácara Mariano Procópio, em 1899, a Viscondessa de Cavalcanti voltou a residir em Paris, onde permaneceu até meados da década de 1920. Logo, vivenciou a Primeira Guerra Mundial em território europeu.
Priscila conta que o álbum reúne mais de 400 envelopes e cartões-postais, organizados por temas, como indicam os manuscritos em francês feitos pela antiga proprietária: “Países Ocupados”, “Censuras Diversas”, “Aeronáutica Militar”, “Ministérios”, “Cruzes Vermelhas Diversas” e “Campos de Prisioneiros”. A historiadora destaca que a estrutura do álbum evidencia o cuidado de Amélia Cavalcanti em dar uma ordem e um sentido ao seu acervo. “Além disso, outro item de sua coleção – um catálogo de leilão de envelopes de guerra, elaborado pelo Comitê Internacional da Cruz Vermelha de Genebra (1918) – indica que ela estava alinhada com as práticas colecionistas daquele momento.”
Dentre os envelopes e cartões-postais agrupados na seção ‘Países Ocupados’, é possível observar itens com carimbos da Bélgica, país que esteve sob ocupação alemã. Por sua vez, os envelopes reunidos na categoria “Censuras Diversas” mostram que as correspondências eram abertas e lidas por censores antes de serem encaminhadas aos destinatários. Já os diversos carimbos em um envelope ou cartão-postal, assim como a presença de mais de um endereço do destinatário, indicam os deslocamentos humanos durante o conflito.
Vários envelopes e cartões-postais que compõem o álbum foram remetidos à viscondessa de Cavalcanti. Ou seja: além de adquirir itens através de compras ou doações, ela também inseriu em seu álbum envelopes e cartões-postais recebidos durante a guerra. Parte dos itens que foram destinados à viscondessa está agrupada nas categorias “Cruzes Vermelhas Diversas” e “Campos de Prisioneiros”.
“Dessa forma, vale destacar a atuação da Cruz Vermelha durante a Primeira Guerra Mundial. A organização criou uma agência para tratar dos prisioneiros de guerra: cuidar dos feridos, fazer as encomendas chegarem aos prisioneiros, tomar notas sobre soldados não registrados, emitir comunicados sobre irregularidades e abusos. Sem notícias, parentes de soldados escreviam para a Cruz Vermelha, solicitando informações”, revela.
Um cartão-postal remetido à “madame” Cavalcanti por uma agência de prisioneiros de guerra - “Les Nouvelles du Soldat”, localizada em Paris - acusa o recebimento de sua carta, informava que seu pedido havia sido anotado e que, caso obtivesse uma resposta, essa seria encaminhada à destinatária.
O álbum também é composto por itens escritos pelos prisioneiros de guerra, que agradecem o envio de “colis”, encomendas recebidas nos campos de prisão e que proporcionavam algum alento aos soldados: chocolate, carne, sopa, chá, feijão, açúcar, geleia, massa, sardinha e outros. Em uma dessas correspondências, o prisioneiro confirma o recebimento de alguns produtos e agradece, sincera e antecipadamente, a possibilidade do envio de alguns cigarros numa próxima remessa.
Priscila conclui afirmando que “a observação do álbum lança luz não somente sobre a relação da antiga proprietária com a Primeira Guerra Mundial, mas também sobre a dinâmica do conflito e as práticas colecionistas referentes à Grande Guerra.”
FONTE/CRÉDITOS: Assessoria/PJF